
O problema todo é que eu sempre imaginei Omaha como uma espécie de Scharlau norte-americana, parada nos anos 90.
Por algum motivo, que não sei precisar qual é, eu vejo Conor adolescente sentadinho na varanda daquelas casas típicas de bairro classe média wasp, entediado e apaixonado por riquinhas frescas tipo Maria taylor e fumando escondido, na varanda, fazendo piadas com Tim Kasher.
Aí quando a entrevista foi marcada e comecei a pensar nas perguntas que seriam feitas, não pensei que estaria entrevistando o Matt Damon e sim aquele guri por quem eu era apaixonadinha por uma ou duas temporadas, lá da Scharlau.
E me preparei com perguntas que não encontrei na internet. E lembro de ter pensado, uma porção de vezes, “que jornalistas babacas estes que o entrevistam! Por que é que não perguntam coisas mais íntimas, coisas que os fãs gostariam de saber? Por que insistem em falar sobre Obama, sobre México e sua evolução musical como cantor?”
O fato de haver muito poucas entrevistas nunca me pareceu nada mais do que falta de interesse da mídia, mais preocupada com Timberlakes, Jonas Brothers e Spears.
Ou seja, eu não me dei conta que, entre os dias de paixão platônica e os dias de hoje, muita água passou pela ponte de Omaha.
Foi por isso que fiquei meio catatônica quando vi a equipe da MTV RS ser educadamente convidada a guardar seus equipamentos sem gravar uma única imagem antes do show.
Foi por isso que fiquei extremamente chocada com a idéia de que a minha entrevista não se realizaria sob hipótese alguma, nem mesmo após o show (‘manda as questões por e-mail, que eu repasso para o agente dele e ele encaminha para o Conor’, disse o assessor de imprensa do Santander)
O fato é que eu passei a semana anterior meio arrependida por ter marcado a tal da entrevista. Porque meu inglês é péssimo, porque Conor é instável e porque sou insegura. Pensando em tudo isso, esqueci de bolar um plano B.
Porque eu imaginava chegar lá como a jornalista que -por acaso- gosta da banda e, “ei, será que podemos tirar uma foto? …Pois é, eu soube dessa sua virada astrológica, então fica com isso aqui, sempre me deu sorte, apesar de que eu não acredite nisso… claro, aqui está meu cartão, te mando o link, fica bem, tchau..”.
Aí eu cheguei lá, tive que ficar na fila por um bocado de tempo, com aquele bando de pirralhos indies, e tive que praticamente berrar alou, segurança-ignorante, eu sou repórter, tenho entrevista marcada, porra, me deixa entrar de uma vez.
Isso uma hora antes de o show começar, com a chuva caindo fina e a previsão de que, se os aeroportos atrasassem, o show atrasaria.
Aí ele chegou, baixinho mas não tanto quanto eu imaginava, segurando um travesseiro, ou algo parecido. Eu, que não planejava fazer a tiete, apenas sorri e deixei que passasse, afinal minha hora com ele seria qualquer minuto próximo. Que erro…
E após um tempo que não sei precisar, o show teve início. E eu não estava ali. Quer dizer, eu estava. Eu nem me preocupei em sentar, fiquei ajoelhada em frente ao microfone, e ao lado da entrada do palco, e perto da bateria, e em todo o canto que meu crachá de imprensa permitia. E eu vi o show mais pela câmera do que da forma convencional, uma vez que tirei 190 fotos ao longo de 15 músicas. Não perdi um movimento dele, nem deixei escapar espaço na frente dele pra que olhasse pra outro lado. Quando, milagrosamente, abria os olhos, eu estava lá embaixo, olhando pra ele, cantando e tentando processar tudo o que acontecia.
E sentindo aquela sensação que todo fã sente quando está entre 18 mil cabeças e sabe que o guitarrista apontou para ele. Mas não estávamos entre 18 mil e, sim, por diversas vezes, vi que ele notou minha presença (mesmo que estivesse pensando: porra, essa gorda não sai da minha frente, que inferno)
Eu não bati palmas porque estava segurando a câmera. E porque não estava ali. Estava, mas não da forma integral. eu estava em algum outro lugar, simultaneamente. eu estava no camarim prometido pelo assessor, fazendo as perguntas que eu tinha feito tantas vezes naquela semana, para o espelho, para o chão, para a esteira. eu acordei e dormi pensando nas perguntas e elas não estavam ecoando em outro lugar além de dentro da minha cabeça.
Como brasileira que não desiste nunca, eu via o set list sem desejá-lo pois estava certa que teria algo melhor ao final da noite. E não me refiro ao sentimento groupie de que sairia dali direto para a cama com Conor Oberst e dali para a lua de mel em New York, onde dividiríamos nossa nostalgia e pena do mundo. Bem capaz. Eu só imaginava que sairia dali feliz por ter feito as perguntas para alguém de quem já gostei tanto.
Um cara que foi a trilha sonora da minha vida nos piores momentos. Nos piores mesmo. (Isso não deve ser um bom título para um músico, eu sei, mas é fato). Ele me acompanhou às terapias em porto alegre, aos exames de sangue em são leopoldo, ao consultório do dr.Prozac, às entrevistas de emprego em jejum. Todo meu histórico de depressão/transtorno alimentar tem a trilha sonora de Bright Eyes. E isso pode não ser bom, mas é real.
Aí o show terminou e eu estava convencida de que seria super legal, pois já estávamos íntimos na minha cabeça. O assessor confirmou o que eu temia. Nada de entrevista. Aí a fã chegou atrasada. Porque, ano retrasado, quando B.E. era minha vida eu tinha esse plano de mandar uma carta para Omaha agradecendo pela existência de seu vocalista e por ele traduzir tão perfeitamente tudo o que eu levaria uma vida para resumir -e sem toda a graça. E a carta existe na minha cabeça. Mas eu nunca a escrevi. Até tentei, mas o inglês fucked up falou mais alto e o projeto ficou adormecendinho.
Eu poderia ter feito isso. Poderia ter escrito uma faixa dizendo que me suicidaria de qualquer forma mas que o faria mais rapidamente caso ele não parasse, tirasse uma porção de fotos, me desse um abraço e um autógrafo. Poderia ter comprado uma garrafa de qualquer bebida bonita e forte, ou uma caixa de chocolates, ou uma flor, um urso, um livro, qualquer coisa que transformasse o carinho em algo apertável e entregável para alguém que em horas vai voltar a seu país, tão distante do meu.
Era a única oportunidade e eu não fiz nada disso.
Só esperei junto a meia dúzia de indie kids por mais de meia hora até que o rapaz resolvesse voltar para sua van. Aí quando ele veio eu fui a primeira a pedir pra tirar uma foto e só lembro que ele disse “Sure” e eu apertei o botão e nem me dei o trabalho de ver como ficou pois estava tentando articular a frase ‘já que tu não me deu a entrevista, uma foto é o mínimo que pode me dar agora’ mas os outros já o estavam puxando e eu ainda estava tentando acessar o meu Google Translator Mental, que não funciona como o verdadeiro.
Uma guria deu alguma coisa pra ele, acho q um pacote de balas, e outras tiraram fotos e ele entrou no elevador. Quando isso aconteceu éramos apenas uns 4 no saguão. E eu fui a única que viu ele acenar enquanto a porta se fechava e eu fiquei ali parada com a expressão mais miserável que pode existir, como quem vê a morte de alguém. Uma porta de elevador se fechando nunca foi tão inevitável quanto um enfarte, como naquele domingo, 20 de julho.
Após a porta fechar eu tentei segurar um choro convulsivo que insistia em não se manter por baixo da pele nem mais um minuto. O segurança me chamou quando me viu sair soluçando e perguntou se estava tudo bem. Eu poderia sentar com ele ali e explicar todos os inúmeros motivos que faziam a situação não estar nada bem, mas apenas preferi balançar a cabeça afirmativamente. Aí ele perguntou: “mesmo?” e a vontade de dizer toda a verdade foi ainda maior, mas ainda havia a chance de encontrar com o ghost por uma última vez, entao corri até a van.
E, sim, ele estava lá dentro e deve ter pensado que eu era algum tipo de autista psicótica, porque eu só me prestei para -mais uma vez- ficar olhando. Enquanto isso um dos caras da produção (a quem odiei desde antes do show, por ter dado um disco do Conor para o cara da mtv -que nem curtia a banda) perguntava aos indie kids algum bar onde as pessoas iriam sempre. Recomendaram o Bambus, troço mega decadente, e eu nem lembrei de falar do Bell’s, menos decadente e ao lado de onde eu moro. Aí não sei se foram para lá ou não. A van arrancou, eu saí na chuva tentando desesperadamente acender um cigarro e chorando como a mais chorosa atriz de novela mexicana.
A noite serviu para me esclarecer que, se não há entrevistas com Conor Oberst é porque ele não quer. Ae não há resposta a perguntas pessoais, é porque os jornalistas concordam em fazer um take meia-boca a não fazer nada. Eu nem tive essa opção. Mas que porra, Conor Oberst.
update:
resolvi criar coragem e ler os tópicos sobre o show. teve gente que beijou e abraçou e o escambau. mas não tive coragem de ler tudo. vou ali ouvir Good Life, enterrar esse dia por completo e voltar à entrevistar CEOs que são mais ricos, empreendedores e acessíveis.