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umbiguismo, saca?

Ponho a mão no fogo

6 April 09

Cobaia do meu próprio experimento

Como narrar ou descrever algo interessante quando sua vida pode ser descrita como um marasmo imensurável? Muito simples. Criando fatos. Perceba, leitor, que “criar um fato” não é, de forma alguma, semelhante a “inventar um fato”. É por isso que na primeira segunda-feira de abril, para tornar as coisas mais interessantes, decidi que deveria matar aula e colocar um piercing.

Acontece que não faço parte de nenhuma tribo cujo costume é colecionar tatuagens ou aplicar jóias pelo corpo - de modo que não havia nenhuma indicação de estúdio ou conselhos de quem já experimentou na pele o que é perfurar o próprio corpo.

Sem grandes alternativas, fiz uma espécie de roleta russa em um site de classificados, escolhendo aquele estúdio que me parecia mais confiável, próximo e barato – nesta ordem. Encontrei um. No Orkut, o estúdio contava com mais de 500 amigos e nenhuma reclamação. Fotos bonitas, cadastro no Sindicato dos Estúdios de Tatuagem e Body Piercing do Brasil e Alvará de Saúde também influenciaram na escolha.

Pela manhã, cometi o pecado capital da curiosidade (não existe, mas deveria) e espiei no YouTube como é feita a colocação de piercings na sobrancelha. Lembrei do velho Jack Bauer, de Sayid Jarrah e de todos os torturadores da cultura pop, mas não desisti. Liguei e agendei para o mesmo dia.

As horas no trabalho passaram esquisitas. Conversas no Twitter não ajudavam muito.

-Meu amigo fez e doeu muito. Até inflamou, declarou um.

-Dói nada, garantiu o segundo.

-Depois desse, tu vai querer outros, vai fundo, encorajou o terceiro.

Quando o relógio marcou 17h53, saí na velocidade máxima que meus pés conseguiam alcançar e atravessei a Cidade Baixa em direção ao Centro da cidade. Dez minutos antes da hora marcada, cheguei a um prédio magrinho na Rua dos Andradas. Apenas uma escadaria mal iluminada e uma plaquinha onde se podia ler “Tatoo & piercing – 4º andar”.

Respirei fundo e entrei no elevador – cujo design era apropriado ao prédio, ou seja, também minúsculo. Ao sair da caixinha, pude ouvir risadas altas. Muito altas. E, atrás das gargalhadas, o som cortante da máquina de tatuar. Nada de campainha, porta trancada com grade. Mais risadas. Bati na porta e tanto as gargalhadas quanto o barulho da máquina seguiram seu caminho de decibéis.

Descobri que o interruptor estava próximo e usei para apagar a luz. Isto deveria chamar a atenção deles, certo? Não chamou. Quase considerando tudo isso como sinais de alguém lá em cima (ou embaixo), pensei em ir embora. Na mesma hora, surgiu uma das garotas sorridentes.

Abriu a porta, perguntou o que seria, respondi. Me olhou e perguntou minha idade (estou a duas semanas de fazer 24). Disse 21. Espantada com minha própria mentira inconsciente, tentei corrigir.

-Não, tenho 22! Meu deus, desculpa, tenho 23. Não sei porque disse isso.

-Sem problemas, só tenho que ver tua identidade porque tu parece novinha – disse desconfiada.

“Novinha e portadora de doença mental”, pensei sem dizer nada.

Me deixou sozinha na sala pequena decorada apenas com um computador, três cadeiras, bandeiras de cartões variados e álbuns de tatuagens. As mulheres risonhas, cinco, continuavam por lá. Rindo, obviamente. Porém na saleta ao lado.

A garota voltou, e após cobrar os 40 reais da aplicação (incluindo a “jóia”), chamou o profissional que, segundo o classificado, “possui curso de biossegurança, com o objetivo de garantir segurança para a saúde do cliente”.

Fui levada até uma outra saleta, na porta ao lado das risonhas. A sala, toda branca, também não poderia ser julgada por excesso de decoração. Uma maca, um espelho e uma mesinha com tintas e máquinas nada amigáveis. Após as instruções de praxe, o tatuador perguntou se eu tinha alguma dúvida. Eu tinha.

-Vai doer muito?

-Imagina, é super rápido - disse um homem de uns 30 anos, cujas partes visíveis (braços e pescoço) eram completamente tatuadas. Nas orelhas, alargadores em estágio avançado, cerca de 10 centímetros. E piercings, obviamente.

Talvez em uma última tentativa desesperada de desistir, perguntei se havia algum problema pelo fato de usar lentes de contato. Não havia.

A coisa dolorida não durou três minutos. Uma pinça segura a pele. Um cateter penetra a região da sobrancelha de baixo para a cima e esta é a Primeira Pior Parte, afinal trata-se de uma agulha atravessando bons dois centímetros do rosto.

Chega a hora da Segunda Pior Parte. O cateter segue pendurado em seu rosto e o piercing passa por ali. Felizmente não sangrou. Por questões de orgulho e fidelidade jornalística, não quis fechar os olhos, porém o processo revoltou o estômago.

Passado o pior momento, era hora de fechar o piercing e ver no espelho como ficou.

Em alguma outra galáxia, lembro de olhar sem ver e de ir embora tentando não fazer drama. No elevador, contemplo a novidade rapidamente mas, talvez pela adrenalina contida, talvez pelo medo que apareceu tardiamente, só quero sair dali. Percebo que estou tremendo.

A dor foi rápida, como uma injeção porém mais demorada. Quero um refrigerante ou um cigarro. Encontro apenas um Mcdonalds e compro um sorvete. Quase vomitando, sento na vitrine de uma loja que já fechou suas portas. São 19 horas, em Brasília e em minha sobrancelha latejante.

Seguro o sorvete, mas não consigo comer. A tremedeira ainda não passou, mas quero mandar uma mensagem de vitória para os 600 seguidores do Twitter. Não consigo.

Tento entender o que está acontecendo, mas também não consigo.

Em três minutos, o mal estar passa. Resta apenas a sensação de dever cumprido. Jogo o sorvete fora e acendo um cigarro. Em silêncio, rezo para que minha vida torne-se mais interessante até o próximo texto, porque não pretendo repetir a experiência de cobaia de mim mesma tão cedo.


Texto escrito pra Unisinos. Desculpa o gigantismo

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Themed by Hunson. Originally by Josh